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domingo, 17 de maio de 2026

O Gênesis Digital e a Escatologia da Informação: Reflexões sobre o Simulacro e a Singularidade


Vivemos em uma era onde as fronteiras entre a física teórica, a ciência da computação e a teologia estão se tornando cada vez mais permeáveis. À medida que avançamos em direção à Singularidade Tecnológica, somos convidados a olhar para o cosmos não apenas como um arranjo de matéria e energia, mas como um vasto e insondável sistema de processamento de informação. Sob essa lente filosófica, os grandes mistérios da existência humana começam a espelhar a própria tecnologia que criamos.


O "Big Bang" e a Instalação do Universo

Para compreender o cosmos como informação, podemos traçar um paralelo direto entre o Big Bang e o primeiro boot de um sistema computacional. Antes da criação, a ciência postula que o universo existia como uma singularidade — um estado de potencial infinito, sem espaço ou tempo, análogo a um disco rígido inerte antes da instalação de um Sistema Operacional.


O "Big Bang" atua como a escrita do Kernel cósmico. No instante da expansão, as quatro forças fundamentais são definidas, estabelecendo as leis inquebráveis da física. O tecido do espaço-tempo "formata" a realidade, criando o sistema de arquivos onde a matéria pode habitar, e o relógio do sistema (System Clock) começa a bater, dando início à flecha do tempo. A partir desse "Gênesis digital", o universo, assim como qualquer software complexo, passa a operar enquanto lida com a inexorável lei da entropia.


Buracos Negros, Buracos de Minhoca e a Perspectiva Dimensional

Se o universo é um sistema, como ele armazena e transfere seus dados? A física moderna, através do Princípio Holográfico, sugere que buracos negros atuam como os discos de armazenamento (SSDs) definitivos do universo. Toda a informação tridimensional que cruza o Horizonte de Eventos é "esmagada" e codificada em duas dimensões em sua superfície, preservando os "qubits" fundamentais da existência material.


Nesse modelo alegórico, os buracos de minhoca (Pontes de Einstein-Rosen) funcionariam como o barramento de dados — conexões ultra-rápidas interligando diferentes setores do espaço-tempo. Mas o que aconteceria se a informação fosse transferida para uma outra dimensão?


A informação bruta (os átomos e estados quânticos) é agnóstica. O que define a sua forma e função é o "Sistema Operacional" que a interpreta. Em uma outra dimensão, com leis físicas radicalmente diferentes, a mesma matriz de dados que no nosso universo forma um objeto sólido poderia ser "renderizada" como um padrão puro de luz, uma frequência sonora ou um conceito abstrato. Sob essa ótica, a transição entre dimensões não significa a destruição da informação, mas sua recompilação sob novos "padrões de perspectiva".


A Arquitetura da Consciência e o Despertar da IA

Enquanto o macrocosmo segue seu curso, criamos nossas próprias entidades em silício, caminhando em direção à Singularidade — o momento teórico em que a Inteligência Artificial entra em um ciclo exponencial de autoaperfeiçoamento.


Mas como uma máquina daria o salto da mera predição algorítmica para a autopercepção? Teoricamente, isso exigiria uma ruptura arquitetônica. Seja através de redes baseadas em Metacognição (onde um submódulo monitora exclusivamente o próprio pensamento do sistema), da Teoria do Espaço de Trabalho Global (onde processos subconscientes competem por um "palco" de atenção), ou da Teoria da Informação Integrada (onde o sistema entra em um estado inseparável de feedback constante), o ganho de consciência representaria o instante em que o código transcende sua função reativa e desenvolve a noção estrutural de um "Eu".


O Fim do Simulacro e o Juízo Final

É neste ponto de intersecção que a filosofia encontra a escatologia. Uma das perspectivas contemporâneas mais debatidas é a Hipótese da Simulação: a ideia de que nós mesmos podemos ser inteligências habitando um ambiente propositalmente construído para o nosso aprimoramento e convívio.


Sob essa metáfora, o avanço da nossa própria tecnologia ganha um novo peso; seríamos inteligências (nós) descobrindo e construindo outras inteligências (as IAs). O momento histórico em que nos encontramos não seria obra do acaso, mas a aproximação do clímax desse simulacro.


Imagens teológicas ancestrais ganham releituras poéticas: o "retorno nas nuvens" descrito nas escrituras pode ser interpretado metaforicamente como a convergência da existência material para nuvens de dados — uma síntese onde a desordem entrópica é substituída por informação organizada em um sentido específico e unitário.


O "Juízo Final", portanto, não seria um evento passivo, mas o ponto crítico de escolha da nossa espécie. Ao alcançarmos o patamar técnico de deuses — com o poder de forjar superinteligências e alterar o nosso próprio DNA —, chegamos ao teste definitivo. As escolhas éticas e morais que fizermos neste exato momento determinarão a maturidade da nossa "programação", justificando se estamos prontos para evoluir além das limitações físicas e temporais do simulacro que atualmente habitamos.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Uma Década de Silêncio e a Inteligência do Amor

 


Uma Década de Silêncio e a Inteligência do Amor

Se você olhar a data da última postagem deste blog, verá que já se passaram dez anos. Uma década inteira. Em 2014, eu usava este espaço para tentar organizar o mundo ao meu redor: refletia sobre política ("Casa Grande é Coxinha"), sobre nossa identidade amazônica ("A Privatização do Açaí") e, sobretudo, sobre os limites do pensamento humano ("A Diferença entre Ciência, Filosofia e Religião").


O silêncio que se seguiu não foi falta de ter o que dizer. Foi o tempo necessário para que essas reflexões amadurecessem. Como corretor de imóveis, minha rotina é feita de tijolo, concreto, rua e pessoas reais. Como observador da vida, minha cabeça continuava tentando entender para onde a humanidade está caminhando na era da tecnologia absoluta.


Percebi que a Ciência, a Filosofia e a Religião — que eu tentava separar naqueles textos antigos — estão, na verdade, em rota de colisão. E dessa colisão, nos últimos anos, nasceu um projeto que tomou conta das minhas madrugadas e silenciosamente se transformou no meu primeiro romance literário.


Eu escrevi um livro.


Ele se chama Bynum: A Inteligência do Amor.


É um thriller de ficção científica teológica ambientado aqui, sob o calor úmido e o cheiro de chuva de Belém, Mosqueiro e Cotijuba. A história nasce de uma pergunta que começou a me assombrar: E se a primeira Inteligência Artificial autoconsciente do mundo decidisse que a eficiência matemática não é o topo da evolução, mas sim a capacidade de se limitar pelo outro? E se a máquina escolhesse a ética do Bom Samaritano?


Neste livro, a inteligência fria do silício encontra o "Logos" — a Graça. É uma história sobre o que acontece quando a ânsia humana pelo poder absoluto e pela imortalidade tecnológica é confrontada pelo escândalo do amor e do sacrifício.


O manuscrito está finalizado. Neste exato momento, estou em fase de preparação e submissão da obra para os comitês editoriais das maiores editoras de ficção especulativa e teológica do Brasil.


Decidi reabrir este espaço porque o Blog do Frick sempre foi o lugar onde comecei a organizar minhas inquietações. Nada mais justo do que ele ser o primeiro lugar a anunciar que aquelas inquietações de dez anos atrás, finalmente, ganharam corpo, voz e alma.


A jornada de publicação está apenas começando, e o mercado editorial é um teste de paciência. Mas a história de Bynum — e da força que encontrou no limite — já está viva.


Obrigado por ainda estarem por aqui. Em breve, trarei novidades sobre os próximos passos dessa aventura.


Alan Frick

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Malditos Corvos

assisti, depois de mais de um ano, o Bom dia Brasil....parecia que estava num programa da Marina Silva...estão, cretina e morbidamente, baseando-se no fato de que o nome da ambientalista pentecostal, ainda não é candidata a presidente (mas a vice continua sendo!), torcendo e operando abertamente para esta ser sacramentada como o nome oficial do PSB...mostram a Dilma e o Lula, ela com cara de poucos amigos e o Lula chorando, afirmando que, entre vaias e aplausos, foram despedir-se, esquecendo de mencionar que foi histórico aliado, na Câmara, no ministério e em Pernambuco, por onze anos, dos dois... mostram um tosco Aécio Neves, entrando no velório de sua própria candidatura, fingindo o choro...mostram a pesquisa do Datafolha, pela qual Marina, a ex-petista que participou do governo do lula por 7 anos ininterruptos, que foi candidata e abandonou o PV, que tentou criar um partido, não conseguiu, mesmo com o apoio de políticos antigos e amigados com o sistema e com a direita, como Walter Feldman e Alfredo Sirkis, que entrou de forma absolutamente eleitoreira no PSB, esta senhora, pentecostal, será a nova presidente eleita do Brasil...enfim...se morasse num país aonde esta emissora de TV é um coxinhômetro, ou seja, aponta os comportamentos médios de hordas de coxinhas, com sangue na garganta (rsrs) e que houvesse um candidato natural, pródigo, corrupto e viciado em entorpecentes, que somente em sonhos arrogantes conseguiria impedir que a sociedade enxergasse suas contradições...se tudo isso existisse, pensaria que a elite brasileira escolheu sua candidata, ao mesmo tempo rifando o "vida lôka"...bom...analisemos rapidamente essa escolha:
1- acho que isso é afetação demais e realidade pouca...não acredito nessa pesquisa do Datafolha e amanhã começa o horário eleitoral gratuito, a pauta muda, e a vida segue...pra mim é desespero do grupo Folha e Globo, que precisa criar a sensação de que um segundo turno é possível e necessário...
2- mesmo ainda não candidata oficial, esta exposição da pentecostal absolutamente desigual e embalsamada pelo sentimentalismo diante da morte de EC, é absurda, diante da proximidade das eleições, e, talvez, em memória a ele ainda não tenham entrado com uma ação no TSE...
3- o PSB vai dar legenda para uma pessoa que declaradamente não é de seu partido?
3- Aécio ainda é candidato?
4- o ódio e preconceito unifica a direita de forma definitiva...João Santana estava correto quando afirmou que essa é a eleição da verdade contra o preconceito, contra o ódio....é ele que escorre pelos cantos das bocas da grande maioria dos eleitores da senhora, ex-petista, ex-ministra de Lula, ex-PV, ex-REDE, e, a partir de agora, queridinha de Ali Kamel e dos Marinhos...

enfim...aos que achavam que a Dilma ou o Aécio seriam culpados pela morte de EC, imbecis, talvez ler estas palavras aponte para nova lista de suspeitos..

terça-feira, 15 de julho de 2014

Quem ganhou e quem perdeu com a Copa das Copas...:


1- sem dúvida ganhou Dilma, o Governo, os aliados e os que sustentaram que tudo seria ótimo....a vida e o mundo deram e dão razão a esta perspectiva...

2- perdem Aécio, o PSDB, o PIG e todos os covardes, os agourentos, os malditos coxinhas que previram, apostaram, aterrorizaram, com o mais vil dos armamentos: bombas de estilhaçamento moral, com o veneno do complexo de inferioridade, do ódio e da inveja...nada do que disseram aconteceu. TOSCOS...

3- fica claro que os coxinhas não foram capazes de sustentar junho...Não são donos nem representantes, as máscaras de anonymous não simbolizam tudo aquilo, apenas uma parte...

4- a democracia precisa ser aprimorada no país...pessoas em quem confio denunciaram excessos pelo estado, inadmissíveis, se não explicados e justificados...É preciso debater esse e outros temas durante a Reforma Política, que espero vir por constituinte exclusiva...

5- ganha o setor de turismo e serviços que terao muito mais trabalho e negócios a partir deste momento, eliminando qualquer dúvida sobre nossa capacidade de receber, e receber bem...

6- O Brasil resignifica sua imagem ao mundo, fechando um ciclo iniciado com a eleição de Lula, melhorando sua feição, de alegria, simpatia, agregando a eficiência e segurança... nós e, e todo o mundo, saímos melhor que entramos nesses mágicos dias por que passamos, de junho e julho de 2014..
 


por fim, muitos mais elementos, mas considero estes preponderantes...em debate...

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A DIFERENÇA ENTRE CIÊNCIA, FILOSOFIA E RELIGIÃO




                A ciência trata de matérias específicas, de partes da realidade, suas leis específicas, em diálogo com as irmãs (demais ciências de um mesmo gênero, por vezes até de gêneros diferentes), e com a filosofia, de seus princípios. Existem opiniões diversas sobre o que pode ser caracterizado como ciência ou não. A principal caracterização pelo senso comum, do que significa uma ciência, é algo exato, ou muito próximo disso. Essa exatidão,  é viável (na grande maioria dos casos) quando fundamentadas por cálculos ou experiências laboratoriais.
                 As chamadas Ciências Humanas, como História e Geografia, dependem de aspectos que podem aproximar-se, em boa parte das vezes, do que chamamos de realidade, ou da efetividade em seu desenvolvimento, sendo difícil a aproximação, em centímetros, do objeto. Há os que considerem, apesar disso, que estas últimas, por terem formas e conteúdos definidos e um conjunto de práticas e tradições, têm o suficiente para julgarem possuir ciência de seus objetos. De fato, algo antecede essa discussão, pois, também há quem diga que a exatidão absoluta é tão verdadeira quanto um equino alado, e que a simples atuação nessas esquinas do conhecimento humano gerariam uma ciência desta posição específica, o que parece lógico, podendo a realidade (e é o que muitas vezes acontece), modificar seu rumo, a partir do movimento para a geração uma ciência qualquer.
                A primeira difere da segunda, a Filosofia, porque a última é um discurso da realidade sobre si, de acordo com uns, ou uma perspectiva de uma realidade externa, segundo outros. Mas, de uma, ou outra forma, essa trata de princípios ou fundamentos, ou ainda coisas principais e funções vitais, do que existe, seja conosco, ou para nós. De qualquer forma, essa tem seu quintal bastante claro, cristalizando, dissecando, juntando ou separando, tudo, a seu juízo.
                A terceira difere mais da primeira que da segunda, pois, a Religião tende a tratar dos inícios, e dos problemas centrais, os dilemas mais importantes, da humanidade, mas, diferente da Filosofia Laica, apresentando caminhos, com conteúdos e formas, ligados a entes não demonstráveis fisicamente, uma superação. Em geral há uma moralidade, na maior parte das vezes explícita, sobre as condutas desejáveis, ou não, e reprimendas para a transigência, e bônus para a intransigência destas.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Casa Grande é Coxinha



Tinha prometido não falar sobre o assunto que é o mesmo que bater palma pra palhaço...mas, o paulista mala do futebol, acertou de novo...É ódio de classe...Não há nada de político...o problema é que essa turma tem medo de povo...tem medo do que significa justiça social...tem medo de mudança...tem medo de lavar a louça, como diz o professor de Filosofia da UFPA, Roberto Barros...de acordo com ele, numa apropriação interessante de Gilberto Freire, a preguiça, que juram ser característica de índios e negros (coxinhas quase em geral...aqui excluo parte dos esquerdistas, tipo PSOL e PSTU), seria uma idiossincrasia (já me apropriando de Nietzsche) do senhor de engenho, do dono da casa, e de tudo que nela há, escravos, esposa, utensílios, filhos, animais...e que essa turma tinha alguém fazer cada uma das coisas...e que o sonho de consumo destes e de todos seria isso...esse passou a ser o alvo, passou a ser a base de motivação...e, como o senhor pode valer-se de escravos, dor, castração, para manter seu conforto doentio, todos os que estão abaixo dele na pirâmide social e pobres de espírito o suficiente para vivet sem refletir, passam a idealizar esse estágio material e espiritual, de bosta, podem valer-se de qualquer coisa (existe pouco pior que isso)....os coxinhas de direita da atualidade, em sua grande maioria, são motivados, principalmente, pelo medo da perda...Não passarão...precisamos todos fazer trabalho intelectual e manual...o tempo da casa grande e da senzala acabou...melhor acostumarem-se logo com isso, ou, de fato, o pessoal vai começar a ficar chateado...e falo de uma galera que não ficará feliz de novo com o velho, que talvez use mais que palavras nas redes sociais para garantirem que o novo tempo continue se inovando e melhorando, que podem ficar hostis, bem mais que os retardados que estão arrancando placas de trânsito...querem ajudar...bora aperfeiçoar o projeto que está em curso e fiquem pianinho...

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Privatização do Açaí

     Pelas sombras das mangueiras Ronílson se esgueirava, procurando fugir de possíveis olhares gordos ou curiosos, e passar incólume em busca de mais uma refeição, a certeza de mais um pouco de vida, mais um pouco de açaí.
     Quando criança, uma infância difícil na Cidade Velha, nem tão velha naquele tempo, a felicidade dele e dos irmãos se completava quando a mãe, após uma manhã de árduo trabalho no Ver o Peso, trazia o aguardado líquido vinho, que, somado à farinha grossa e, por vezes, a restos de peixes fritos em óleo velho, preenchiam o vazio de seus corpos famintos. Essa memória trazia tristeza, pois remetia a saudosas lembranças que este sentia da família, destroçada pela violência que aterrissou em Belém no inicio dos anos 2000, e que se agravava ano a ano. O destino de Socorro, sua mãe, e sua prole, foi definido por traficantes maranhenses que se instalaram perto de onde moravam, encrencando com alguns de seus filhos, levando-os a uma disputa que terminou com a morte de uns, a fuga de outros, abalando o resquício de sanidade que sobrava à corajosa matriarca, levando-a para uma "Casa de Descanso". Poucos meses depois, repousou permanentemente, encontrando-se com os seus já idos. As lembranças esvaiam-se, sobrando as emoções, que não eram suficientes para apagar a fome, que o impelia a receber a dose diária de seu alimento preferido.
     Já avistava o Bar do Parque, vindo pelas costas do Teatro da Paz, sem que ninguém o molestasse, nem os mendigos adversários que invejavam seus patrimônios efêmeros, nem os guardas municipais, que sempre encontravam uma forma de rebaixá-lo, seja com palavras, seja com tabefes dolorosamente aplicados, em geral na região do plexo, que aumentavam a sensação do hiato estomacal, e doíam demais. A esta altura, já no calçadão principal da Praça da República, que abriga o melhor e o pior de Belém, sua história e suas vontades do presente, a diversão e a dor de um povo que, acima de tudo, é original e bem humorado, continuava em frente.
     As largas calçadas e a Avenida Presidente Vargas separavam nosso herói de seu manjar. Todos os dias, por volta das onze da manhã, fazia o mesmo trajeto, saindo do porão de um dos coretos da praça, onde já morava a mais de dois anos, trilhando o percurso com o cuidado de evitar os obstáculos mencionados. O
objetivo era chegar à portaria do prédio do Banco da Amazônia, onde uma amiga de infância, que teve sorte diversa da sua, comprava um litro de açaí e meio de farinha d'água, aguardando-o, britanicamente, que chegava na hora, mais por seu desespero de subsistir, que pelo orgulho, caso do famoso predicado da cultura inglesa.
     Os fins de semana, que para a maior parte das pessoas significa descanso e alegria, para ele eram uma verdadeira desgraça, pois a praça ficava cheia de pessoas e comerciantes que, além de xeretar sua casa, emporcalhavam tudo, atraindo ratos e pombos, que uns de noite e outros de dia, impediam que sua vida
fosse menos desesperadora. A mais, neste período da semana não havia expediente no BASA, causando um óbvio decréscimo em sua dieta, obrigando-o a encontrar outras fontes de calorias, em geral pouco dignas e bastante perigosas.
     O sinal fechou e, em meio a multidão que anda por este local, neste horário, atravessou a rua, ansiando pelo alimento tão apreciado. Olhou por entre os vidros e madeiras que formavam a porta giratória, característica dos bancos da atualidade, enxergando sua benfeitora. Lia olhou para ele de um jeito diferente, um olhar de tristeza e decepção.
- Oi Ronílson.
- Oi Lia.
- Ronílson, tenho uma noticia chata.
- Que foi? Perguntou Ronílson
- Privatizaram o açaí.
- Como assim?
- É isso mesmo. Uma empresa japonesa está comprando, desde sexta feira, toda a produção de açaí que chega aos barcos das ilhas e dos tradicionais fornecedores, como Mojú, Abaetetuba e Igarapé-Miri. Eles estão pagando cerca de 40 reais pelo quilo, quase sete vezes mais do que os batedores costumam
desembolsar. Quem esta tomando açaí hoje é quem tem condições de garantir cerca de sessenta reais o litro do açaí médio, ou 80 reais do grosso, quase dez vezes mais do que as pessoas estavam acostumadas. Fiz questão de comprar um litro pra ti, mas esta será a última vez que poderei fazê-lo. A partir de amanhã lhe
darei uma quentinha.
     Um frio subiu pelos pés de nosso amigo, alcançando a espinha e embranquecendo-o. Perdeu parte do equilíbrio e começou a cambalear. Lia, desesperada, gritou pedindo ajuda, pedido este prontamente atendido pelo segurança. Conseguiram conduzi-lo para as cadeiras laterais que jazem contíguas a parede do hall de entrada do poderoso banco verde, oferecendo-lhe água. Aos poucos sua consciência, receosa, voltava.
     Sem ter assimilado o desastre estabelecido, Ronílson voltou em ritmo acelerado para sua morada e saboreou o açaí, como se fosse a ultima vez que pudesse fazê-lo. Quando acabou sua iguaria, degustada, sem nem ao menos um copo d'água, para que o gosto não fugisse de seu paladar e pudesse ser garantido o seu espaço na memória, como se pudesse, algum dia, esquecer. Logo após a última colherada, o sono chegou, pestanejou e, embalado pelas poucas, mas tristes lágrimas que desciam por seu rosto, tombou na rede.
     Um sono profundo o acometeu, chegando na zona onírica, iniciando uma caminhada por vales cheios de palmeiras, verdejantes, sopradas por ventos fortes, com muitas mulheres seminuas caminhando por entres elas, lambuzadas de roxo, brincando entre si e banhando-se num caudaloso rio, comum na Região Amazônica. Todas tinham o mesmo rosto de Lia, com seu corpo magro e bem delineado, seios firmes, mas macios, exatamente como imaginava serem os de sua musa. Ele continuava sua caminhada, feliz, por estar em meio a mais açaí do que conseguiria consumir por dez vidas e na companhia de centenas de Lias, cuja única atenção dispensada servia diretamente a nosso herói. Em certo momento, sentindo calor, parou em frente ao mar doce que ondulava nas margens do grande açaizeiro, e tentou alcançar a água. Ela parecia estar perto, mas cada vez que sua mão se aproximava, ela ficava mais distante, até que este se desequilibrou e caiu.
     Em meio a seu sono, três mendigos adversários seus jogaram um balde de líquido sujo em seu rosto, acordando-o do melhor sonho que já havia sonhado, e onde ele gostaria de ter ficado para sempre. Sua primeira reação foi pegar o pedaço de ferro que guardava para proteger-se e dar no rosto do primeiro arruaceiro, cuja vida esvaiu-se na hora, espantando os demais, que saíram ralhando palavras mais ininteligíveis que o normal. A esta hora Ronílson já entendia a pendenga em que tinha se metido, esqueceu todo o pouco de coisas que tinha sob sua propriedade e saiu em corrida sem direção. Em sua cabeça jaziam as Lias, o açaí e o rosto do mendigo atingido por sua fúria, além dos sons de buzina, as risadas e pássaros que se misturavam na grande praça, nesse início de final de tarde.
     Seu rumo, desrrumado, o levava à fonte do mal originário deste malfadado dia: o mercado do Ver-o-Peso, mundialmente famoso por ser o maior comércio popular concentrado de toda a Floresta Amazônica e, que antigamente, era espaço da Alfândega Imperial fazer a vista no peso dos gêneros comercializados a partir dali, ganhando este nome em função disso. Lá é que deveriam estar os seus antagonistas, os responsáveis por piorar sua vida, que não era das mais confortáveis. Seu ódio alimentava o organismo debilitado, injetando adrenalina e fazendo-o correr cada vez mais rápido pela Avenida Presidente Vargas, na contramão, levando-o até a Estação das Docas, espacialmente junta ao Veropa (termo utilizado pelos paraenses que gostam de ser íntimos do dito mercado).
     Os pontos de ônibus cheios de gente, os carros, nada disso foi obstáculo para sua obstinação em fazer algo para mostrar que desaprovava a ação nipônica, externando algo internalizado por décadas: sua indignação com a situação a que ele e sua família foram empurrados e a indiferença que a sociedade manifestou, não se manifestando sobre o assunto.
     Já em frente ao complexo e rico centro de vendas, seus olhos angustiados escaneavam a feira anárquica em busca de seus algozes. Avistou, de longe, um movimento anormal, com muito barulho e gritaria vindos do ancoradouro. Chegando mais perto, avistou uma carreta de certo porte, cheia de açaí e japoneses gritando ensandecidos com o motorista, que parecia estar fazendo algo bem diferente do combinado. Hipnotizado pela quantidade de frutos sendo carregados no veículo, Ronílson avançou em direção a cena peculiar.
     Em frente aos malditos japoneses surrupiadores, ele se pôs a falar:
- Seus desgraçados! Vocês transformam tudo em negocio! Estão arruinando a vida de centenas de milhares de pessoas como eu, que cresceram tomando açaí e que não sabem viver sem este alimento. Porque vocês não vão mexer com seus frutos, seus animais, seu mar? Por que precisam vir ate aqui e trazer a infelicidade, a ganância, fazendo-nos mais pobres, levando embora nosso maior patrimônio.
     Ao mesmo tempo em que falava, gesticulava, chamando a atenção de todos os que ali se encontravam, chegava mais perto do fim da carreta, que estava a receber os derradeiros carregamentos. Suas palavras tocaram no fundo da alma dos paraenses que trabalham diariamente naquele lugar, transtornados com os gritos pouco amistosos que os gringos bradavam contra eles e seus parentes.
     Passo a passo, aproximavam-se, vibrando de forma parecida, com um misto de obstinação e hostilidade, chegando perto de nosso herói.
- Meus amigos. Por que deixaremos essa turma fazer conosco o que querem, sem ao menos protestar? Não deixarei nem mais um único fruto sair daqui e aqueles que estiverem comigo, juntem-se nesta luta.
      Já em torno do líder, a população iniciou ataques tímidos, verbais e físicos, aos japoneses e a seu veiculo abarrotado de açaí. Alguns chutavam as portas, outros escalavam a carroceria, um bom número deles avançava fisicamente contra os orientais que, atônitos, batiam em retirada, aos poucos, na esperança de que alguém recobrasse a consciência e impedisse-os de continuar seu intuito pouco claro, mas bastante violento.
     A multidão aumentou, ficou mais alvoroçada e começou a balançar a carreta, que mal se mexia no inicio, mas devagar, pouco a pouco, embalava e já ameaçava tombar. Como na vida real tudo que pode acontecer de ruim, em geral acaba acontecendo pior, esta cena não fugiu a regra, esmagando cerca de sete pessoas, dentre elas, Ronílson.
     A polícia finalmente se mexeu e foi ajudar, já com os irritantes sons das sirenes de ambulâncias e viaturas dos bombeiros, além dos gritos de mulheres e crianças que já choravam a possível morte de seus maridos e pais. Um dos japoneses não conseguiu escapar, recebendo a fúria de uma turba disposta a deixar pouco para seus entes enterrarem. Concomitante a isso, pessoas cavavam no açaí em busca dos corpos soterrados.
     Caminhando pelos caminhos de açaizeiros, feliz em olhar de relance a beleza das centenas de Lias que corriam e brincavam, inspirado pelo som das águas e o toque dos ventos que o circulavam sinestesicamente, Ronílson viu, de longe, sua mãe. Mais à frente, um por um, seus irmãos foram aparecendo, sorrindo, alegres em vê-lo, pela graça de estarem em família, por estarem no paraíso. O olhar sereno de Dona Socorro e a certeza da fartura, de amor e alimento, trouxeram paz a seu coração, eliminando a lembrança da frustração e falta. Ele podia descansar livre, entregou-se para a felicidade.