Powered By Blogger

sábado, 20 de junho de 2026

Da Semelhança e Não da Igualdade: os limites do tribunal humano diante de Deus

 

"O nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti." — Santo Agostinho, Confissões, I, 1


Introdução: a pergunta que vem antes do julgamento

Diante do mal, do sofrimento ou do aparente paradoxo divino, a reação humana mais espontânea é instaurar um tribunal. O homem senta-se na cadeira do juiz e convoca Deus ao banco dos réus: se és bom, por que isto? Se és onipotente, por que aquilo? O problema do mal, formulado já por Epicuro e sistematizado por Hume nos Diálogos sobre a Religião Natural, parece pressupor que temos jurisdição sobre as ações divinas.


Este artigo defende uma tese anterior a esse debate: antes de perguntar se Deus age bem, é preciso perguntar com que autoridade nós o julgamos. E a resposta, sustentada tanto pela tradição filosófica quanto pela revelação, é que fomos criados à semelhança de Deus, não à Sua igualdade — e que a própria lógica com que pretendemos julgá-Lo é parte da criação, não da essência incriada do Criador.


1. A régua é criatura: os limites da lógica humana

Quando afirmamos "isto, em Deus, seria uma contradição" ou "aquilo seria um defeito", aplicamos ao infinito categorias que são finitas. Aqui se abre a primeira grande questão: a lógica — inclusive o princípio de não contradição — vincula a Deus?


A tradição se divide, e ambas as vias conduzem à mesma humildade:


A via voluntarista. Pedro Damião, no De divina omnipotentia (séc. XI), sustentou que a onipotência divina não está submetida sequer às leis lógicas — Deus poderia, em tese, fazer com que o passado não tivesse acontecido. Guilherme de Ockham e Duns Escoto afirmaram que o bem é bem porque Deus o quer, e não o contrário. Descartes radicalizou na doutrina da criação das verdades eternas (cartas a Mersenne, 1630): até "2+2=4" e os princípios lógicos são instituições da vontade divina. Se assim é, a lógica é criatura — e exigir que o Criador a respeite é querer que o autor obedeça às regras que escreveu para os personagens.


A via intelectualista. Tomás de Aquino (Summa Theologiae I, q. 25) responde de modo diferente: Deus não pode fazer um "círculo quadrado", não por fraqueza, mas porque a contradição não é nada — é um não-ente, um som vazio. Aqui a não contradição não é lei externa imposta a Deus, mas reflexo da coerência do próprio Ser divino, que é o Logos (Jo 1,1). Deus não se submete à lógica; a lógica é a sombra finita de Sua inteligibilidade.


O ponto decisivo é que as duas vias desarmam o tribunal humano. Na primeira, porque Deus transcende a própria lógica. Na segunda, porque a lógica que empunhamos é apenas eco pálido d'Ele — e usar a sombra para condenar quem a projeta é absurdo. Em ambos os casos, o que parece "contradição" em Deus é, na verdade, transcendência da nossa capacidade de apreensão: o que os teólogos chamam de mistério, não de defeito.


2. Semelhança não é igualdade

O Gênesis afirma que o homem foi feito "à imagem e semelhança" de Deus (Gn 1,26). A tradição patrística e escolástica leu nisso uma dignidade altíssima — e, ao mesmo tempo, um limite intransponível. A imago Dei nos dá razão, liberdade e capacidade de conhecer a Deus por analogia. Não nos dá a Sua infinitude, a Sua aseidade (o existir por si mesmo), nem a Sua posição.


Para julgar as ações de alguém com legitimidade, é preciso estar em igualdade com ele ou ter a sua permissão. O homem não possui nenhuma das duas diante de Deus. É a lição final do Livro de Jó: depois de capítulos de acusação, Deus responde não com argumentos, mas com perguntas que revelam o abismo entre criatura e Criador — "Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra?" (Jó 38,4). Jó então se cala: "Falei do que não entendia... ponho a mão sobre a boca" (Jó 40,4; 42,3). Não houve veredito sobre Deus. Houve reconhecimento de tamanho.


3. O silêncio reverente: a teologia apofática

Se não nos cabe julgar, qual é a postura fiel? Não a afirmação temerária ("há contradição em Deus") nem a negação igualmente presunçosa, mas o silêncio reverente.


Essa é a tradição da teologia apofática ou negativa: Dionísio Areopagita (Teologia Mística), Gregório de Nissa, e o anônimo medieval da Nuvem do Desconhecimento. Sua intuição: sobre Deus, sabemos com mais segurança o que Ele não é do que o que Ele é. Toda afirmação positiva sobre o infinito precisa ser corrigida pela consciência de que Ele excede infinitamente o conceito. O não-saber, aqui, não é treva nem covardia intelectual — é a forma mais alta de conhecimento disponível à criatura.


4. As três coroas: o gesto único da humildade

A cena dos vinte e quatro anciãos (Ap 4,10) — que, coroados, lançam suas coroas diante do trono — oferece o símbolo que unifica tudo. Eles não argumentam diante de Deus: adoram. E ao devolver suas coroas, ensinam que a verdadeira vitória da criatura não está em acumular, mas em depor.


São três as coroas que a criatura é chamada a lançar:


A coroa do mérito — renunciar a reivindicar o galardão, para que o amor a Deus seja gratuito e não interesseiro. O interesse pode ser o andaime inicial da fé; o amor desinteressado é o edifício.

A coroa do juiz — renunciar ao veredito sobre as ações divinas, reconhecendo que esse assento jamais nos pertenceu.

A coroa do eu — a mais pesada: renunciar à pretensão de ser origem de si mesmo, e aceitar-se como criatura, e não acaso.

5. Criatura, não acaso: o fim da inquietação

Aqui chega-se ao coração da questão existencial. À pergunta sobre a própria origem, há duas respostas radicais:


Acaso: sou produto cego de forças sem intenção. Minha pequenez é humilhação sem propósito.

Criatura: sou pensado, querido, chamado à existência por uma vontade amorosa. Antes de eu ser, já era desejado.

Só a segunda dá sentido à impotência. Se sou acaso, minha finitude é miséria. Se sou criatura, minha finitude é o lugar exato da filiação: o filho não se envergonha de ser menor que o pai — repousa nisso.


Por isso o reconhecimento da própria impotência, longe de ser derrota, pode ser a maior vitória de uma vida. Não a vitória do mundo, que infla o eu, mas a vitória rara de quem para de lutar para ser Deus e descansa em ser obra Sua. É a resignação no sentido nobre do termo: re-signar, reassinar conscientemente — e por amor — o pacto da própria criação.


Conclusão

O percurso é um só movimento, em três tempos: a lógica que nos parecia soberana revela-se criatura; a imago Dei mostra-se semelhança e não igualdade; e o tribunal humano, desarmado, dá lugar ao silêncio adorante. A inquietação agostiniana do início — "inquietum est cor nostrum" — só cessa quando o coração abandona a vertigem de se pensar autônomo e repousa naquilo que sempre foi.


Não se trata de abdicar da razão, mas de reconhecer-lhe o alcance verdadeiro. A maior lucidez da criatura não é julgar o Criador: é conhecer o próprio tamanho. E desse conhecimento nasce a única certeza que sustenta todas as outras:


Sou criatura, não acaso.


Referências e fundamentos citados

Santo Agostinho, Confissões, I, 1.

Pedro Damião, De divina omnipotentia.

Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 25 (sobre a onipotência).

Duns Escoto e Guilherme de Ockham — voluntarismo da vontade divina.

René Descartes, cartas a Mersenne (1630) — criação das verdades eternas.

Dionísio Areopagita, Teologia Mística; Gregório de Nissa; A Nuvem do Desconhecimento — teologia apofática.

Bíblia: Gn 1,26; Jó 38–42; Jo 1,1; Ap 4,10; e o pano de fundo do problema do mal em Hume, Diálogos sobre a Religião Natural.

Nenhum comentário:

Postar um comentário