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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Carta para o Pastor Antônio Carlos Costa

 Escrevo-lhe após assistir com profunda atenção ao seu recente vídeo, no qual o senhor reflete sobre a fé da Igreja Lagoinha, suas lideranças e os impactos da mudança de paradigmas ideológicos que, desde o final de 2012, vêm reconfigurando a sociedade brasileira e mundial. Suas palavras tocam em feridas abertas e em tensões que ainda assombram o Brasil, e reconheço a importância de sua voz nesse cenário. No entanto, sinto a necessidade de propor um contraponto fraterno a uma premissa específica que o senhor levantou.

Em determinado momento de sua fala, o senhor afirma que uma de nossas tarefas como cristãos seria a mudança e a transformação deste mundo. É exatamente sobre esse ponto que divirjo: a nossa tarefa primária não é, e não pode ser, a transformação do mundo. Este mundo não é nosso; este principado não nos pertence.

É preciso, contudo, fazer uma consideração fundamental. Se rejeitamos a ideia de que nosso papel é dominar o mundo, não podemos cair no lado oposto, que seria um espiritualismo alienado — achar que só devemos fazer aquilo que tem a ver com o espírito, isolados da realidade. Não é isso. A nossa tarefa é fazer tudo o que é possível ser feito de bom para o espírito, para a sociedade e para o planeta em que vivemos, mas sem contaminar o nosso método.

Afinal, o que é fundamental? A salvação individual. E qual é o farol que ilumina essa caminhada? O amor. Esse amor não pode ser apenas um ideal romântico; ele deve sobreviver como uma articulação prática, como a nossa verdadeira arquitetura ética. E essa arquitetura ética governa, de forma absoluta, a "forma" como agimos.

Eu não posso corromper as minhas ações para alcançar um objetivo que, no fim das contas, me pareça salutar. Lembremos do apóstolo Pedro: na ânsia de fazer o bem e defender o próprio Filho de Deus, ele sacou a espada e feriu o guarda romano. Ele tentou usar os métodos do mundo para proteger o Reino dos Céus. O que Jesus nos ensina ali é que a forma altera o conteúdo. Fazer o bem exige usar os meios corretos que estão à nossa disposição, estritamente de acordo com a perspectiva crística.

Se, para transformar o mundo, for necessário usar as armas e os métodos daqueles que servem ao mundo, essa transformação deixa de ser cristã.

Sei que o senhor, em seu íntimo e em sua teologia, pensa da mesma forma. Mas sabemos que, na prática, nós muitas vezes escorregamos. Digo isso pensando principalmente nos irmãos em Cristo, em caminho de salvação, que participam — seja como observadores ou como militantes — da luta política, em especial no campo da esquerda. Por vezes, na paixão por justiça social, corremos o grave risco de adotar um comportamento que está muito mais próximo do signo de Maquiavel (onde os fins justificam os meios) do que de Jesus Cristo.

Essa é uma luta cotidiana. Ninguém, nem mesmo os mais sábios, experientes ou bem-intencionados entre nós, está imune a essa tentação das armas do mundo. E é exatamente por reconhecer essa fragilidade, inclusive em mim, que escrevo ao senhor com toda a humildade.

Agradeço por seu ministério e por fomentar reflexões tão vitais para a Igreja brasileira. Que possamos continuar buscando o discernimento para sermos luz, fazendo o que é certo, sem jamais negociarmos os métodos do Evangelho.

Com profundo respeito e em Cristo,

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