Desde o fim da semana santa, travou-se uma importante e significativa batalha política na disputa pela direção do Diretório Central dos Estudantes na Universidade Federal do Pará, a segunda maior instituição federal de ensino público do país. Num momento em que esta passa por uma série de históricas transformações infra estruturais, da consolidação do processo de interiorização e aprofundamento da democracia, o grupo que geria a dez anos os rumos do movimento estudantil perdeu as eleições desta última semana.
O PSOL, principalmente, perdeu o comando da entidade através da qual destilou sectarismo e intolerância política, exacerbado esquerdismo, principalmente nos últimos quatro anos (mais à frente explico a diferença que havia no período anterior a 2008). Uma importante derrota, levando em conta que era o maior DCE que dirigiam, em todo o Brasil.
Durante meus tempos de movimento estudantil no Rio de Janeiro, lembro da UFPA como sinônimo de CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores), então tendência do PT. Este era o principal espaço formador de quadros deste partido portanto, esta não é qualquer derrota para eles, foram feridos gravemente. Abro um parênteses para falar da CST:
A forma como cercaram Pedro Fonteles no ICB, covardemente, diz muito sobre o que são hoje, podemos somar a invasão que promoveram à sede do PSTU em Niterói, espancando as pessoas que ali se encontravam. Não possuem um único parlamentar e sua principal liderança no estado, na primeira oportunidade, traiu seus eleitores e mudou-se para o Rio de Janeiro, depois de uma epifania sobre a revolução ética no Brasil, pós CPI do Mensalão. Uma tendência, como diz o PSTU, irresponsável. Há uma ou duas na UFPA que não combinam nem um pouco com isso. Torço para que recuperem o tempo perdido e utilizem sua militância para algo construtivo social e pessoalmente. Falo isso sinceramente.
Do PSTU, apesar de fazer parte do grupo que perdeu a gestão do DCE, não posso falar a mesma coisa. Eles não precisam tanto da UFPA, possuem bastante consistência orgânica e, de fato, a ANEL os têm ajudado a recrutar quadros para suas fileiras, e conseguem mantê-los ocupados com isso. Não fará tanta diferença para eles, são menos dependentes desta dinâmica. No fim, acho que ficarão mais a vontade como oposição e poderão, inclusive, substanciar sua militância com mais uns dois ou três quadros do PSOL, depois da guerra, quero dizer, balanço. Não seria nenhuma novidade.
Venceram a eleição os integrantes da CHAPA 2- UFPA QUE QUEREMOS, pois conquistaram, pela primeira vez em uma década inteira, uma das coordenações gerais... também o fizeram os militantes da CHAPA 1- a LIGA ACADÊMICA INDEPENDENTE, que conseguiu ultrapassar os 10% de cláusula de desempenho, arrebatando quadro vagas na próxima direção. E, a maior vitória foram os 55% totais, através dos quais as duas chapas juntas, caso queiram, têm o poder de marcar reuniões, ou mesmo acelerar o ritmo das necessárias mudanças pelas quais o DCE precisa passar.
Agora, mais do que falar sobre quem perdeu, é importante antevermos os dilemas e decisões do que vem pela frente, além da necessidade de ajustamento na gestão em torno de um conjunto de ideias e metas que unifiquem o máximo de forças e pessoas políticas, que farão parte da nova diretoria do DCE. Urge a resolução desta questão para que a agenda do movimento estudantil não fique à mercê de brigas e picuinhas de perdedores. É preciso andar pra frente, quem quiser caminhar junto que o faça, os que não, enfim, assistam ao espetáculo.
Penso que existem três grandes desafios iniciais que o DCE da UFPA precisa resolver e que dependem, exclusivamente, de vontade política:
1- É fundamental regularizar a situação jurídica e institucional da entidade. É tão absurdo este não possuir ao menos o CNPJ, que não preciso alongar-me neste assunto.
2- É preciso estabelecer uma agenda de reapresentação do DCE para dentro da Universidade (Institutos e Campi) e para a sociedade paraense, conversar com prefeitos, deputados, senadores, presidentes de entidades dos movimentos sociais (de todos os partidos), articular junto à sociedade civil organizada; participar das conferências e agendas públicas, ou seja, voltar a fazer parte, para além das manifestações partidárias, da vida do restante da sociedade.
3- Estabelecer regras claras de funcionamento da diretoria, com penalidades para os que faltarem reuniões, antecedência na convocação destas e respeito às decisões coletivamente deliberadas.
Ademais, existem projetos em curso, como a captação dos recursos para os JOGOS INTERNOS DA UFPA e para o projeto ESPORTE NA UNIVERSIDADE, cerca de R$2.500.000,00, que podem credenciar a UFPA como a maior investidora no esporte, entre todas as demais no Brasil, incluídas aí as universidades particulares. Às vésperas da Copa do Mundo e das Olimpíadas, podemos ser exemplo neste importante segmento, para todo o restante do país. E tantos outros projetos em curso, da universidade ou não, para os quais esta entidade durante tanto tempo negligenciou. É necessário saber quais e onde estão estas iniciativas, e participar delas.
Mas, para tudo isso dar certo, é preciso que, o campo que ganhou as eleições tenha calma, não caia em provocações, tenha em mente que, mais importante que identificar os pontos de diferença, neste momento, precisamos encontrar os de concordância, e passar a segunda, e passar a terceira...enfim...Quem quiser acompanhar vai ter de, primeiro, aprender a ser minoria, engolir o orgulho e a arrogância. Espero que o façam, pois, desta forma, avançaremos mais rápido. Aliás, pra quem quiser, tenho várias fichas de filiação do PCdoB e, tenho certeza, que a turma do PT e PDT também. Pros insatisfeitos, não existirá hora melhor.
Parabéns aos aos lutadores da maior batalha que já presenciei dentro de uma universidade, foi minha última, mas a melhor...
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domingo, 29 de abril de 2012
SOBRE AS ELEIÇÕES DO DCE DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
carta de Lélio Costa sobre os dois anos da morte de Neuton Miranda
Neuton Miranda: um revolucionário!
Hoje faz 02 anos do desaparecimento físico de um dos mais ilustres revolucionários da esquerda paraense, Neuton Miranda. Tive a honra de acompanhar seus últimos 04 anos de vida e ação.
Sua chegada à Superintendência do Patrimônio da União no Pará – SPU/PA foi marcada de expectativa e esperança, pois lidar com um órgão tão conservador e estruturalmente formatado que atendeu, por mais 150 anos, às elites que sempre dominaram os sistemas de consumo e produção do pais não era tarefa simples.
Teve a coragem e ousadia dos “grandes” em romper com a lógica perversa e arcaica, ao passo que se concentrou em colocar o dedo em feridas profundas da sociedade como dar garantia da segurança da posse às famílias que realmente necessitam, reconhecer o uso e ocupação das comunidades tradicionais extrativistas das florestas, propor outro formato para o uso e ocupação das orlas fluviais da Amazônia, assim,fazer cumprir a função social da propriedade pública.
O camarada inconformado com a situação das populações ribeirinhas nos colocou a pensar na implantação do Projeto Nossa Várzea – Cidadania e Sustentabilidade na Amazônia Brasileira, que nasceu de longo debate com as lideranças regionais. O Nossa Várzea já beneficiou/libertou mais de 33.000 famílias ocupantes das margens de nossos cursos d”águas. Ao longo de mais de 04 anos constatamos histórias dignas de filmes e documentários ao depararmos com famílias que viviam em situações análogas ao trabalho escravo, e a partir do NV foi quebrada os laços nocivos com algumas famílias “tradicionais” e hoje vivem livremente.
Lembro-me perfeitamente que foi no carnaval de 2009 que foi concebido o Projeto de Regularização Fundiária Urbana de Belém, a partir de conversas com o Neuton em sua casa em mosqueiro. Naquele dia nosso camarada tivera uma noite difícil vinha de uma crise alérgica e estava medicado.
O resultado desse projeto foi beneficiar mais de 12.000 famílias ocupantes das áreas urbanas da União em nossa capital, por meio das Concessões de Uso Especial para fins de Moradia – CUEM individual e coletiva, ação ainda em curso atualmente
Em breve, lançaremos o 6º Manual do Projeto Orla: Readequação metodológica para o uso e ocupação das orlas fluviais e estuarinas da Amazônia, que foi gestado por esse visionário. Esse projeto impactará a maioria dos municípios em nossa região.
Interessante registrar que mesmo em um corpo franzino, ao mesmo tempo postura delicada, e um olhar convicto deixava claro que era preciso aprofundar mais essa revolução silenciosa.
Para com o meio ambiente deixou sua marca, foi o braço direito para que a Regularização Fundiária das Unidades de Conservação, principalmente das Reservas Extrativistas Marinhas se tornasse realidade, e hoje estamos a consolidar essa política, assentados no georeferenciamento em base geodésica dos perímetros dessas UC’s que beneficiará mais de 30.000 famílias.
Nosso camarada abriu o caminho ao auxiliar na destinação de muitas áreas públicas para provisão habitacional de interesse social, dentro do programa Minha Casa, Minha Vida, em municípios como, Santarém, Marabá e Belém.
Nos últimos meses que antecederam sua morte, conversávamos muito sobre o problema das glebas patrimoniais urbanas dos municípios do Pará que estavam em áreas da União, como era o caso do Arquipélago do Marajó e Belterra/PA. Atualmente estamos em processo de demarcação, em base geodésica via o Programa Terra Legal, dos perímetros urbanos no Marajó.
E naquele dia 20.02.2010, Neuton estava em Belterra/PA para formalizar a entrega para a Prefeitura a légua patrimonial urbana, a cerimônia foi belíssima, Ele estava consciente do que fora fazer e estava muito feliz! Ouvi atentamente seus derradeiros conselhos e suas últimas palavras, vê-lo e senti-lo partir foi algo que ficará para sempre em nossa memória e militância.
Não tenho dúvidas que convivi com uma das pessoas mais generosas, meiga e gentil que conheci, me senti adotado, cercado por carinho paternal. Sinto-me privilegiado por ter viajado tantas vezes e ouvi-lo muito durante horas e que tem feito muita diferença. O seu legado é singular para todos nós!
Neuton Miranda viverá para sempre na história de marabá, Pará e do Brasil! Viva esse revolucionário que nunca morrerá em nossos corações!
Belém, 20 de fevereiro de 2012.
Lélio Costa da Silva
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